29 de dez de 2012

Positivo

Bateu a porta.
Espalhados pelo chão, rastros e restos. Papéis e letras despedaçados, cacos dos vasos jamais floridos, respingos alcoólicos, marcas de passos leves e brevidades; fragmentos de amanhãs em estilhaços de ilusão.
Sobre a mesa ainda posta, duas taças com vinho. A da esquerda, intacta.

26 de dez de 2012

Outros Sublinhamentos

História Clínica
Por Eduardo Galeano

Informou que sofria de taquiacardia toda vez que o via, mesmo que fosse de longe.
Declarou que suas glândulas salivares secavam quando ele a olhava, mesmo que fosse por acaso.
Admitiu uma hipersecreção das glândulas sudoríparas toda vez que ele falava com ela, mesmo que fosse apenas por cortesia.
Reconheceu que padecia de graves desequilíbrios de pressão sanguínea quando ele a roçava, mesmo que fosse por engano.
Confessou que por ele padecia de tonturas, que sua visão se enevoava, que seus joelhos afrouxavam. Que nos dias não conseguia parar de dizer bobagens e que nas noites não conseguia dormir.
- Foi há muito tempo, Doutor - disse. - Eu nunca mais senti nada disso.
O médico ergueu as sobrancelhas.
- Nunca mais sentiu nada disso?
E diagnosticou:
- Seu caso é grave.

21 de dez de 2012

Alguns conselhos


esteja disponível para os que ama e aprenda com aqueles que magoam acorde cedo acorde tarde acorde na hora em que o corpo pedir acorde na hora que quiser sorria quando sentir vontade e não contenha as lágrimas segure o choro para parecer forte seja fraco seja resiliente seja altivo ajude aqueles que estão longe e também os que são próximos mantenha-se distante abrace olhe nos olhos e quando for mentir desvie o olhar quando mentirem desanuvie ignore os olhos acaricie abrace passe os dias sozinho debruçado sobre os livros anestesiado pela televisão imbecilizado pelo futebol saia de baixo da cama assuste maravilhe-se ria em boa companhia sorria só use roupas novas apegue-se às roupas velhas molde-se ao seu corpo construa um corpo seu se desfaça do que já não serve doe-se seja de verdade minta quando precisar de proteção não espere bênçãos vindas do céu não espere nada do outro mexa-se faça sexo sem compromisso faça sexo com amor faça sexo faça por merecer enxágue as mágoas passageiras mantenha as antigas tristezas no congelador armazene sentimentos saudáveis consuma o ódio antes que ele o consuma use roupas de cama limpas rejeite a lavagem ame os porcos não coma os animais raciocine leia bons livros e livros ruins assista aos filmes sozinho abrace quem ama na fila do cinema até que um dos dois se sinta desconfortável beije erre mais erre diferente felicite-se pelos acertos presenteie aqueles de quem lembra presenteie-se não gaste seu dinheiro gaste tudo com aquilo que te faz bem não se desgaste em vão abrace causas falidas batalhe por ideais não se deixe corromper vá ao teatro sinta-se livre para dizer que não gosta de teatro assista novas peças reveja peças nas quais não se viu peça perdão perdoe-se afaste-se de pessoas nocivas não sucumba às idéias corrosivas ande de bicicleta vá à academia orgulhe-se do sedentarismo respeite os que são dignos de respeito e os indignos também respeite as leis subverta-as respeite-se grite com aqueles de quem sente raiva exprima-se odeie sussurante e ame baixinho declare-se admire o pôr-do-sol durma durante o pôr-do-sol aceite-se dance se tiver vontade sinta-se feliz por não dançar deixe-se escravizar pelo celular e pela internet desprenda-se das falsas conexões alimente ilusões conviva com amigos imaginários sofra cante na chuva siga as pistas e os conselhos siga a estrada de tijolos amarelos ignore conselhos e listas faça listas amasse papéis delete arquivos salve-se salve-os aconteça o que acontecer não coma animais.

18 de dez de 2012

Sublinhamento

Somente o tempo e a solidão possibilitam a absorção e a digestão do que nos chega pelos sentidos. Quanto mais profundo é um poço, maior o tempo necessário para que alguma coisa lhe chegue ao fundo. Então a solidão é uma necessidade para quem quer conhecimento. Mas a vida em sociedade exige poços rasos.

Excerto do livro Nietzsche e a grande política da linguagem; Viviane Mosé

15 de dez de 2012

Tuitéria


Afetuar é como abraçar inteiro até desfazer o nó.

***
Afetuar a acontessência das pessoas e das coisas todas.

***
***

T R A N S F O R (A) M A R

***
Reamar é ser surpreendida pela felicidade alegre de um amor antigo.

***
***

Só ganho corpo quando encontro um deslugar.

***
Um corpo em movimento é um corpo pulsante: dançar é [en]tornar-se coração.

12 de dez de 2012

Atualizando a Biblioteca: Promessas


Sou uma daquelas muitas pessoas que costumam cumprir o prometido - desde que prometa para os outros. Eu te darei o céu, meu bem... Mas comigo não vou além. Me faço pelo menos cinco promessas diárias e fico satisfeitíssima quando consigo cumprir uma delas.
É raro, quase impossível, cumprir as metas estabelecidas. Por algum motivo incognoscível (pausa para o Aurélio!), preciso caminhar por muitos mundos antes de ceder aos meus desejos e sucumbir às prioridades quase desimportantes; para chegar até mim.
Prometi escrever, neste blogue, sobre todos os livros lidos durante 2012 e, embora registre em caderninhos, que apelidei de livrários, todas as minhas impressões e opiniões sobre leituras, ainda não cumpri um terço da promessa.
Eu nunca havia estabelecido uma meta de leitura, mas, em janeiro passado, o fiz pela primeira vez. Prometi ler a Poesia Completa do Manoel de Barros durante os doze meses do ano e agora celebro o cumprimento de uma promessa e a despedida de um livro repleto de paisagens transformáveis e palavras com sabor de descoberta maravilhante.
Manoel de Barros me causou estranhamento durante a primeira leitura - dO Livro das Ignoranças -, há alguns anos. Depois da experiência frustrada, passei algum tempo flertando, durante mergulhos na internet e idas à livraria, com a poesia do autor. Como Clarice, Virgínia e alguns outros, o poeta foi um caso de amor às segundas vistas, um prêmio pela minha insistência.
Foi bom ler Manoel de Barros durante o ano em que li muitos outros poetas. Eu poderia dizer que escrevo melhor quando leio mais poesia, ou que vejo e sinto melhor quando imersa nas palavras dos fazedores de beleza poética, mas minha relação com a poesia não pode ser descrita, ela é sentível e, apesar de farfalhante, quase enclausurada, só acontece dentro.
A poesia engrandece o olhar. Me torno imensadora de universos distintos quando sinto que as palavras de um poeta me habitam e ganham novas formas e significados a partir do meu ângulo de visão - que sei transformável, sempre efêmero.
Há períodos em que preciso de doses cavalares de poesia e outros em que a prefiro em doses homeopáticas. Os encontros com Manoel de Barros respeitaram meu ritmo e compreenderam minhas disposições e disponibilidades. Poesia Completa foi uma ótima companhia e repousará na estante até chamar pelos meus olhos mais uma vez. Sei que vai acontecer sempre que a poesia de que ele é feito souber que precisa estar mais presente em parte de tudo aquilo que me torna eu.

Poesia Completa - Manoel de Barros - 496 páginas - Leya

6 de dez de 2012

Borboletantes

Você fica por aí, feito borboleta daltônica pousando nas flores que não poliniza; enquanto eu me sinto eternamente crisálida, me debatendo no casulo que fiz bonito, mas que, além de aprisionar, descobri repleto de infiltrações. Qual é o problema com a plenitude? Precisa ser sempre difícil, mesmo quando desejamos simplificar?

3 de dez de 2012

03-12

... ainda que você seja essa estrada pedregosa e cheia de buracos profundos repletos de obscuridades que às vezes se sobrepõem ao céu que poderia ser sempre azul.

30 de nov de 2012

Novembro

Uma das grandes alegrias foi ver um textículo escrito por mim publicado na página 55 da revista Blimunda #6, celebrando os 90 anos do José Saramago.


A revista está disponível online, aqui.

Do afeto

Hoje terminamos a caixa para guardar discos de vinil. Minha avó fez a parte mais bonita, a tampa craquelada. Extensos veios dourados na planície cor de cereja. A mim couberam a pintura lisa, a colocação das rodinhas transparentes escolhidas por ela e a aplicação do verniz em spray, a proteção brilhosa do despertador da rinite esquecida.
Mamão dulcíssimo no desjejum, às seis. Fiz pão integral com sementes de chia para o café da manhã das minhas meninas, que despertam quase sempre depois das dez e meia.
Manoel de Barros, gargalhadas, panos de prato pintados, aplicações e bordados. Marisa Monte, passa-fita, estampas e sianinha. Telenovelas exibidas para o vazio: desperdício sem culpa.
No final da noite, como em todas as outras noites, florais, chá-chá-chá, beijos e abraços - substitutos da monótona oração ao deus descrente.

Meu sono não vem.

O aroma do bolo de nozes perfuma a madrugada; dizem alguns vizinhos que ele atravessa a garagem e que chega a dobrar a esquina nos dias mais claros. Antes de renascer bocas adentro, ultrapassamos os quintais.

27 de nov de 2012

Tuitéria


A madrugada cega ignora todos os gritos do abismo.


***

É como uma goteira de alma. Ela sai fininha e pouca, mas, quando me dou conta, tenho uma extensa poça morta sob mim.

***

Só quando disse que vivia em uma bomba-relógio percebeu que via o mundo de dentro de uma bola de sabão.

***

Minha vida sou eu.


26 de nov de 2012

Atualização da Biblioteca: Vermelho Amargo



"Um dia eu soube que o arco-íris é filho da admiração."



Gosto de pensar que sou escolhida por determinados livros ou autores que desconheço, por isso evito ler, ver ou ouvir resenhas de livros que me pareçam interessantes. Pelo mesmo motivo, costumo rejeitar indicações de leitura vindas de pessoas próximas ou distantes.
Quem me sugeriu a leitura de Vermelho Amargo foi a Tati (dona do No país das entrelinhas), que tem bom gosto literário, é sensível e escreve muitíssimo bem. Ela disse que a escrita do Bartolomeu lembrava o que escrevo e que, ao ler o livro, lembrou de mim. Decidi ouvir as vozes da gratidão, em vez de me submeter às falsas certezas da arrogância, e fiz uma ótima escolha.
Vermelho Amargo me colocou em contato com uma melancolia a que me dou direito, que muitas vezes é considerada quase um crime entre o povo e os autores de um Brasil alegre e solar com o qual não me identifico.
Não sei se a Tati sabe que faz muitos anos que perdi a minha mãe (creio que não sabia), mas, no livro, o autor discorre sobre a ausência da mãe morta ainda na sua infância e sobre como essa ausência reverbera nos acontecimentos, reações e sentimentos, durante o passar dos anos e da vida que nos parece sempre longa demais.
Me apaixonei não só pela edição maravilhosa do pequeno livro de capa dura, que tem o corte e a impressão em vermelho, ou pela prosa poética deslumbrante tecida por Bartolomeu Campos de Queirós. Me apaixonei pelo livro como por um espelho, porque me vi em cada uma das palavras e sensações. Me vi nas sentenças inevitáveis provocadas pela mais dolorosa das ausências. Encontrei nas palavras do autor a delicadeza, as possibilidades do belo diante da lucidez assombrosa, no cumprimento de um destino sempre rude.
Em Vermelho Amargo pude perceber que a cortante e dolorosa sensação de abandono não precisa, necessariamente, ser fruto da minha amada solidão, mas pode advir do excesso de amor; porque o amor transborda e sufoca aquele que ama quando a mãe já não existe para recebê-lo incondicionalmente. Mesmo que para toda a família a vida transcorra com naturalidade, há aqueles em quem a ausência - que o passar do tempo não ameniza e torna cada vez mais profunda - jamais deixará de doer.
Li boa parte do livro aos soluços, imersa em lágrimas. Ainda assim, secretamente satisfeita e imensamente feliz. A partir de um gesto de afeto, vivi mais uma oportunidade de me reencontrar.

Vermelho Amargo - Bartolomeu Campos de Queirós - 75 páginas - Cosac Naify

21 de nov de 2012

: psicodelia metafórica sem fim


Écran e ego.

espelho mágico!

Desterro lisérgico.

redimensão ilógica.

Extrema-unção metódica.

estado de recomposição.

Estar na companhia do não.

[amor]tecer-se abraçado ao gelo.

Árticos poemáticos.

derretimento verbal.

(In)versos do(s) tempo(s).

sóis da crendice primaveril.

Lua qualquer de joelhos.

louvação do nada.

Devoção insone.

lento desviver.



Dos diálogos entre @FugadoIntelecto e @deapaulino.

13 de nov de 2012


Eu me perdi na sordidez de um mundo
Onde era preciso ser
Polícia agiota fariseu
Ou cocote

Eu me perdi na sordidez do mundo
Eu me salvei na limpidez da terra

Eu me busquei no vento e me encontrei no mar
E nunca
Um navio da costa se afastou
Sem me levar.

Eu me perdi - Sophia de Mello Breyner Andresen

28 de out de 2012

Sublinhamento

A nossa História é o nosso corpo. Tudo está inscrito nele: a exaltação e a detração. O nosso corpo histórico tem sido edenizado, exaltado, erotizado, adornado, mas também mortificado, torturado e mutilado. É um corpo fonte de prazer e hedonismo, mas também objeto de castigo e suplício - "o país moenda de corpos", como denunciou Darcy Ribeiro.

Excerto do ensaio Viva o Corpo brasileiro, escrito por Zuenir Ventura, publicado no livro Oito ou nove ensaios sobre o Grupo Corpo.

24 de out de 2012

Encarnado

Metade das linhas banhadas por lágrimas, a outra metade buscando a respiração perdida em algum lugar sob a pele quente.

Quantas vidas para desatar os nós do coração?

20 de out de 2012

Biblioteca: Górki (auto-biografia com hífen)

Antes de começar a ler Infância, que é o primeiro volume da auto-biografia, li um pouco -muito pouco - sobre as controvérsias acerca do posicionamento político de Górki, sobre suas relações com Stálin e com o stalinismo. Mesmo depois de iniciar a leitura, não aprofundei meus conhecimentos históricos para além dos ótimos prefécios e posfácios escritos por Rubens Figueiredo e Boris Schnaiderman, responsáveis também pela tradução da auto-biografia - Boris Schnaiderman traduziu Ganhando meu pão e Rubens Figueiredo os outros dois livros.
Fui ao encontro de Górki em busca de literatura e encontrei literatura das melhores, deslumbrante, daquela que os russos sabem fazer.
Li um livro por mês, em maio, junho e julho passados. Temo ler ininterruptamente muitos tomos do mesmo autor e, sem me dar conta, permanecer imersa em seu universo, presa - como se depois dele eu pudesse estranhar a ponto de repelir todos os outros escritores. Entre um livro e outro, preciso de passeios por outras letras e paisagens escritas, por outros lugares de mim.
A relação que Górki parece ter estabelecido com as mulheres é notável, mesmo para quem - por viver em outro planeta? - não é sensível ao feminismo. No primeiro livro ele se mostra muito ligado à mãe e, posteriormente, à avó, por quem cultivou uma admiração quase devota. Na ausência das mulheres da família, e com o avançar da idade, surgiram o encantamento pela beleza feminina e também as manifestações de indignação com acontecimentos e palavras que denegriam as mulheres. Em algumas passagens dos livros, Górki agiu como protetor daquelas que, como ele, eram(?) vistas como seres inferiores.
Os livros da auto-biografia de Górki parecem sempre úmidos e nublados. Foi na obscuridade bem descrita, com temperaturas e cores que provocam sensações físicas quando saltam aos olhos, que Górki relatou os dias difíceis - que foram quase todos - que viveu.
Guardei com apreço a descrição dos episódios de amor pelo conhecimento e pelos livros, as passagens em que o autor relembrou as breves, mas valiosas, amizades, e também o modo como o autor/narrador se relacionou com as perdas e intempéries, que não foram poucas ou pequenas. Fiquei admirada ao perceber que, mesmo sujeitado a episódios de brutal violência e agressividade, manifestadas desde o seio familiar e reproduzidas também nas relações sociais, o autor tenha mantido aceso o encantamento pela beleza - que nem sempre, ou quase nunca, está relacionada à felicidade ou às alegrias - que tenha se dedicado a buscar e a produzir o belo.
Os três volumes da autobiografia de Górki relatam histórias de superação. Não da superação clichezenta, do "feliz para sempre" ou do herói, mas da superação de quem se transforma e reexiste a partir do presente e do possível, sem grandes pretensões sobre-humanas.
Infância, Ganhando meu pão e Minhas universidades são, também, livros sobre a força e a beleza de buscar-se em um mundo que parece distante e perdido. São livros de sobreviver.

Infância - Maksim Górki - 312 páginas - Cosac Naify
Ganhando meu pão - Máksim Górki - 456 páginas - Cosac Naify
Minhas universidades - Maksim Górki - 280 páginas - Cosac Naify

15 de out de 2012

11 de out de 2012

5 de out de 2012

Tuitéria

Desconstruir a força para gerar movimento: o corpo é massa de desmoldelar.

Sublinhamento

Hoje fui encontrada por um livro que li em janeiro de 2010.


Ninguém tem palavras para os outros. Cada um tem palavras para si, e são essas que utiliza. Mesmo quando falas para o outro, dizes para ti as palavras. Mesmo quando chamas alto o nome da pessoa que amas. A linguagem é egoísta, não tenhas ilusões. É tua propriedade.

Na página 36 do livro A perna esquerda de Paris seguido de Roland Barthes e Robert Musil; Gonçalo M. Tavares.

30 de set de 2012

Pas de deux

Depois de décadadas de encantamento com os sóis, o céu, os vôos dos pássaros e outras deliciosas grandezas naturais, arredondei-me em uma leve curvatura cervical e, menos ereta - por isso consciente do desejo e da necessidade da prática da pequeneza -, tornei-me atenta, quase obcecada, ao constante movimento dos meus pés.
Passo após passo, caminhar revelou-se uma atividade potencialmente aflitiva. Já não via as pedras e ignorava os buracos e calçadas íngremes. Não sabia se caminhava sobre o asfalto ou se equilibrava o corpo, subitamente enlevecido, sobre o meio fio. Ganhei atenção nos dedos e uma saborosa ignorância no olhar. Passei a sentir a brisa sobre as unhas e a sujidade acumulada em camadas entre as cutículas crescentes e o esmalte vermelho. Descobri novos saltos reiventando velhas maneiras de impulsionar. Equlibrava todo o peso sobre os calcanhares e já não sentia as pedras pontiagudas que por vezes perfuravam a pele espessada pela fricção contra o tempo.
Durante a exploração dos pés descobri novos modos de tatear, de me sentir sólida e transbordante sobre um mundo contaminado pela aridez. Experimentei a sensação de estar menos pressionada pela atmosfera que muitas vezes oprime; de ser, também, e principalmente, fonte de expiração e de vida úmida, passagem de ar.
Reduzida a um par de pés caminhantes, aprendi coreografias para brincar com as possibilidades oferecidas pelo corpo de que sou parte, pela brevidade do meu corpo. Percebi novos eixos, ignorei retas e restos, passei a me relacionar melhor com os planos que me atravessam.
Dancei as limitações para experimentar novas maneiras de estar em mim.

22 de set de 2012

Tuitéria

Só acreditava em finais infelizes. Desejava o vazio, o abandono, o silêncio e as fraquezas todas. Arruinada, poderia recomeçar.

14 de set de 2012

natimorto

o piso roto
posto
sobre a pedra
rasgada

a cobertura
parva
do descanso
eterno

ascender ao fogo
romper o pó:

13 de set de 2012

Saramado

Adoraria escrever um discurso longuíssimo, mas há sensações que as palavras não dão conta de abrigar. Sobra afeto. Faltam braços.
Sinto como se deixasse um bilhete acanhado à porta daquele por quem nutro admiração.

Algumas palavras minhas na homenagem "90 anos, 90 palavras", no sítio da Fundação José Saramago, aqui.

9 de set de 2012

Biblioteca: Um pouco de poesia

Do livro n.d.a.:


...
nenhuma das alternativas
me alivia -
nem a lâmpada acesa
nem o sol da Bahia
nem o dom da beleza
nem a anestesia
...


n.d.a - Arnaldo Antunes - 208 páginas - Editora Iluminuras



Do livro Há Prendisajens com o Xão
O Segredo Húmido da Lesma & outras descoisas:


também:
aprendizagem é a palavra que, ela sim, ramifica e desramifica uma pessoa; ela enlaça, abraça; mastiga um alguém cuspindo-o a si mesmo, tudo para novas génesis pessoais.
estas palavras são, elas sim, para pessoas que se autorizam constantes aprendicismos. modos. maneiras. viveres. até sangues. aprendizar não é repessoar-se?



Há Prendisajens com o Xão - Ondjaki - 72 páginas - Editorial Caminho

31 de ago de 2012

27 de ago de 2012

Os livros portugueses

O Biofagia não é um blogue sobre livros.
Não sei escrever resenhas, por isso não as escrevo. Não costumo ler resenhas sobre os livros com os quais pretendo me encontrar. Os bons livros contam-se sozinhos, não precisam de resumos, embora sejam merecedores de todas as declarações de amor.
Escrever sobre os livros que leio é um desejo pessoal; publicar algumas impressões e palavras sobre a minha relação com eles me ajuda a cumprir a meta, a registrar meus instantes. Não tenho grandes pretensões.
Como grande parte dos livros escritos por autores pelos quais me interesso ainda não foi publicada no Brasil, costumava encomendar a uma livraria brasileira os livros publicados por editoras portuguesas.
Costumava.
Fiquei surpresa quando recebi um e-mail da WOOK e ainda mais surpresa quando visitei a livraria.
A WOOK disponibiliza livros que a livraria brasileira em que costumava comprar dizia estarem esgotados e, mesmo com os custos do envio intercontinental, oferece preços muito mais atraentes do que os que costumava ver em livrarias internacionais e menores que os preços pagos à livraria brasileira que aceita encomendas.
Antes de colocar o banner (que é lindo!) no blogue, testei o serviço. Escolhi um livro de poemas do Saramago, um livro de contos do José Luís Peixoto e um, também de contos, do Ondjaki.
Os livros saíram de Portugal no dia 14/08, um dia depois da compra, e no dia 18/08 estavam aqui, na minha casa, muito bem acondicionados, em uma caixa ao alcance das minhas mãos.
Eu poderia ter me tornado uma afiliada antes de testar o serviço e sem contar a minha história com a WOOK, mas estou encantada.
As boas livrarias merecem todas as declarações de amor.

23 de ago de 2012

Sublinhamento

Aliás, eu recomendaria a você algum desleixo, uma memória mais curta, certa preguiça mental. Sim, porque, veja, aquilo a que chamam falta de virtudes desempenha papel bastante grande na existência humana; é importante, quase necessário, eu diria. Não fossem essa ausência de virtudes e os erros, o mundo careceria de calor, encanto e riqueza. Metade do mundo, e talvez a metade, no fundo, mais bela, pereceria sem as negligências e as fraquezas.

Excerto do livro Jakob von Gunten, por Robert Walser

17 de ago de 2012

Quinta-feira, Março 05, 2009

Os bons-dias
ou Um presente

Herdeiros do vento, despidos de todos os preconceitos, preceitos e de todas as inúteis vaidades, há muito renderam-se ao tempo e suas intempéries. Exploradores da realidade pétrea, idealizam com luminosidade radiante as inúmeras possibilidades do porvir que inevitavelmente os alcança segundos após a conclusão do pensamento tornado pretérito ao transformar-se em palavras.
Satisfazem-se ao desvelar cada um dos secretos anseios compartilhados. Alegram-se nas doces pequenezas em que convergem as existências paralelas sulcadas pelas distinções. Olhares e tato contemplam, contentes, a inteireza da realidade. Sorriem diante de mais um alvorecer e, ao entrelaçar os dedos das mãos, adormecem.
Sobre a íntegra brancura das açucenas, como sob a ensolarada e límpida margem fértil do rio, amanhece azul.

10 de ago de 2012

Biblioteca: encontros, reencontros e descobertas

O filho de mil homens

Eu ainda não conhecia nenhum outro livro do Valter Hugo Mãe - que acompanho via Facebook e Twitter - quando O filho de mil homens chegou às minhas mãos. Prestes a ler mais um livro do autor, posso dizer que ele é um forte candidato a se tornar um dos meus favoritos, daqueles que merecem ter toda a obra devorada sem parcimônia.
O filho de mil homens é apaixonante. Fui cativada pela escrita que é quase música e, durante a imersão na beleza do universo do livro, senti que gostaria de ser um pouco de cada um dos personagens que habitam suas páginas.
Terminei a leitura desejando observar mais, sonhar mais e fazer mais do que aquilo a que estou habituada - e desejando, é claro, novas viagens pelas delícias nem sempre doces, mas inevitavelmente humanas, do universo criado pelo autor.

O filho de mil homens - Valter Hugo Mãe - 256 páginas - Cosac Naify



Antes das Primeiras Estórias

Minha primeira experiência com Guimarães Rosa, que é referência para muitos dos autores que admiro, não foi das melhores. Li Sagarana na esteira ou na bicicleta da academia e tudo pareceu deslocado - tanto quanto eu me sinto deslocada com a música insuportável daquele lugar.
Quando escolhi Antes das Primeiras Estórias como segunda tentativa, não sabia da apresentação escrita pelo Mia Couto. Ótima surpresa; senti como se recebesse as boas vindas por insistir na aproximação.
O Guimarães Rosa de Antes das Primeiras Estórias parece bem diferente daquele que li em Sagarana e que encontro em excertos, mas ensina tanto quanto outros livros de autores já consagrados. Gostei de ler um autor ainda jovem, talvez imaturo, mas talentoso. Gostei de perceber que ele, antes de tornar-se quase unanimidade, fez outras tentativas, que não "engessou" a escrita, e que se propôs ao maravilhoso desafio de, criando, (se) transformar.

Antes das Primeiras Estórias - João Guimarães Rosa - 96 páginas - Nova Fronteira



Bonsai

Muitos falaram e escreveram sobre Bonsai, que li assim que foi lançado. Logo, penso que qualquer coisa que escreva sobre ele me condenará ao fundo poço infinito da repetição.
Gosto do formato do livro, que poderia ser um livrinho de bolso, se fosse aparado, como sugerem o pontilhado na capa e as marcas de corte no interior.
É uma estória de vidas, muito bem podada, precisa, ainda que aconteça também na infinitude das entrelinhas. É uma estória para ser lida toda de uma vez e para, observada a partir de outros pontos, ser constantemente descoberta a partir da releitura.

Bonsai - Alejandro Zambra - 64 páginas - Cosac Naify



Short Movies

Short Movies é, como sugere o título, composto por breves cenas deliciosamente descritas por Gonçalo M. Tavares, que continua sendo um dos meus grandes amores. Gosto das estórias que, neste livro, se dizem através das palavras, mas que propõem exercícios imaginativos, questionamentos de como e por que os personagens e situações chegaram até ali.
A edição feita pela Editorial Caminho é belíssima, com capa dura e sobrecapa ilustrada com fotos de uma bailarina que remete aos movimentos e figurino da minha amada Isadora Duncan.
Escrever é, também, fotografar instantes. Arte que, em Short Movies, Gonçalo M. Tavares realiza com poesia e perfeição.

Short Movies - Gonçalo M. Tavares - 160 páginas - Editorial Caminho



Caro Michele

Caro Michele é mais um livro da bela e ótima coleção Mulheres Modernistas, que, para minha alegria, parece não ter fim. Quando Caro Michele chegou às minhas mãos eu não sabia exatamente quais eram a forma e a temática do livro, além de não conhecer muito sobre a autora, Natalia Ginzburg.
Àquela altura eu escrevia, com um amigo, o esboço de um livro no qual a história aconteceria a partir da troca de cartas entre duas pessoas. Fiquei obviamente surpresa quando descobri que em Caro Michele os fatos se desenrolam exatamente assim, a partir da troca de correspondências entre pessoas que possuem laços familiares e afetivos, e que têm suas vidas e relações permeadas pelos acontecimentos da época, que foi marcada pela tentativa de um golpe de Estado na Itália e pela vitória do fascismo.
Ainda que o livro retrate um período difícil e existências dolorosas, a escrita de Natalia Ginzburg é deliciosa. Por conta do deslumbramento com a autora que ainda não conhecia, desisti do livro que não escrevi.

Caro Michele - Natalia Ginzburg - 192 páginas - Cosac Naify

30 de jul de 2012

Biblioteca: três russinhos



Nem me passava pela cabeça, então, que o homem não é uma planta e não florece todo ano. A juventude come pães doces e dourados, pensando que é esse o pão de cada dia; no entanto, chega a hora em que se faz qualquer coisa até mesmo por um pãozinho comum.

Ássia - Ivan Turguêniev - 120 páginas - Cosac Naify


Quando a cortina sobe e, à luz da noite, entre as três paredes, esses talentos formidáveis, os sacerdotes da arte sagrada, representam como as pessoas comem, bebem, amam, andam, vestem seus casacos; quando, das cenas e das frases mais banais, tentam desencavar uma moral - pequenina, fácil de entender, útil para fins domésticos; quando, em mil variantes, me apresentam sempre a mesma coisa, então eu fujo correndo, como Maupassant fugia da torre Eiffel, que lhe oprimia o cérebro com sua vulgaridade.

A Gaivota - Antón Tchekhov - 112 páginas - Cosac Naify



"Que criatura destruidora e cruel é o homem, quantas plantas, quantos seres vivos diferentes ele não destruiu, para a manutenção de sua vida!" - pensei, procurando involuntariamente algo vivo no meio do assolado campo negro.

Khadji-Murát - Liev Tolstói - 224 páginas - Cosac Naify



Os três livros integram a bonita coleção Russinhos, da Cosac Naify, da qual também faz parte o livro Uma criatura dócil, sobre o qual já escrevi aqui.

Ássia foi meu primeiro encontro com Turguêniev. Até ser encontrada pelo livro eu não sabia da existência do autor - menos conhecido, no Brasil, que os outros grandes romancistas russos do século XIX. Me apaixonei pela escrita precisa e pela delicadeza com que retrata os personagens e as condições emocionais e sociais que compõem o belo e doloroso amor impossível. Terminei o livro desejando conhecer outras obras do Turguêniev.

Apesar de me comover com as encenações das estórias do Tchekhov, durante muito tempo fugi da leitura das peças, porque me imaginava incapaz de ler uma peça de teatro que parecesse muito complexa, na qual figurassem muitos personagens - antes dela havia lido Entre Quatro Paredes, do Sartre, algumas peças e cenas do Nelson Rodrigues, e nada mais. Perdi o medo, venci o preconceito que usava como defesa e não me arrependo de tê-lo feito. Durante a leitura de cada uma das páginas da escrita deslumbrante de A Gaivota descobri personagens e vidas intensos e extremamente humanos, vivendo em cenários distantes daqueles com os quais estamos habituados, mas encenando vidas muito próximas das vidas que vivemos, retratando sentimentos e sensações comuns a muitos de nós.

Tolstói é um dos meus autores favoritos, mas não me interessei muito pela temática abordada em Khadji-Murát. Talvez tenha sido pouco generosa; não costumo gostar de histórias de guerra e, mesmo que tenha empreendido algum esforço para nutrir afeto pelo livro, sinto que fracassei. Embora a escrita do livro seja belíssma e os personagens e histórias muito bem descritos - as cenas são quase cinematográficas -, não creio que se torne, um dia, um dos muitos livros que pretendo reler.

Biblioteca: Diferente como Chanel

A leitura de Diferente como Chanel me fez lembrar do livro Moda: uma História para crianças, publicado pela mesma editora.
Além de a edição ser belíssima e ter ilustrações maravilhosas, ricas em detalhes, o texto é bastante acessível, sem ser vazio.
O livro conta como Chanel venceu as adversidades e ficou famosa a partir da autenticidade, por ter adequado a moda às necessidades do tempo e do lugar em que viveu.
Gosto da proposta de alinhar, em livros infantis - mas não só neles -, a História da Moda com a História geral; da visão da moda como um reflexo da sociedade, como forma de adequação às necessidades que vão além da estética e da auto-afirmação.
Vivemos dias em que a moda, como quase tudo, parece composta por efemeridades, superexposição e consumo desenfreado, por isso a delicadeza despretensiosa (é só um livro infantil!) de Diferente como Chanel pode ser um bom primeiro convite à reflexão.

Diferente como Chanel - Elizabeth Mattews - 40 páginas - Cosac Naify

29 de jul de 2012

Tuitéria

Labiríntico é um adjetivo de reencontro.

**

Certeza é um substantivo de enganação.

**

Fazer do movimento um abrigo: a dança no centro do abraço.


25 de jul de 2012

Biblioteca: José Luís Peixoto, eu e a minha avó

Escolhi dois livros do José Luís Peixoto porque vivi, durante a leitura de ambos, experiências semelhantes, provocadoras de reações diversas.
Abraço, como o nome sugere, é um livro confortável, composto por crônicas que contam histórias deliciosas, que nos aproximam do autor. A Mãe Que Chovia, apesar de ser um livro infantil, conta uma estória inquietante - de uma inquietude grandiosa e boa, mas ainda assim inquieta para as crianças experimentadas, como eu.
Li boa parte do Abraço em voz alta, para a minha avó, que tem 81 anos e que, apesar de gostar de estórias e histórias (e de ter sido a primeira fabuladora da minha vida, durante as noites de férias, na minha infância), conquistou, com o passar do tempo, pelo vento que vincou a pele luminosa, o direito à preguiça de ler.
Durante leitura das crônicas em que José Luís Peixoto relata as experiências da infância e da juventude, vi brilharem os olhos azuis mais bonitos e curiosos de que tenho notícia. Foi maravilhoso descobrir que, apesar de muitos anos e um oceano de distância entre eles, minha avó tem recordações de vivências muito parecidas com as do autor que admiro. Interrompemos muitos parágrafos para compartilhar nossas histórias, relembrar momentos do passado recente e trocar impressões sobre o nosso tempo, que é sempre o presente, o agora - na nossa família todo tempo é hoje.
Entre as crônicas do Abraço, acompanhadas por sorrisos intermináveis que exprimiam o indizível, pudemos "reler" muitas histórias que nos transformaram em quem somos, que são parte de nós. A partir da leitura, das palavras que ecoaram pelo quarto e pela sala, Abraço tornou-se parte da nossa riquíssima biblioteca - vidoteca? ou memorioteca? - afetiva e familiar.
A Mãe Que Chovia, como o título sugere, conta a estória de um filho da chuva. Repeti a contação de estória para a minha avó, compartilhando também as bonitas ilustrações do Daniel Silvestre da Silva, no livro que é todo poesia.
Senti em A Mãe Que Chovia uma imensa força do feminino, que me é tão caro. A grandiosidade do amor materno, a ausência da mãe (porque já vivi mais da metade da minha existência com esse buraco de mãe, que é para sempre) e o poder do sentimento que nos uniu.
Interrompi a leitura muitas vezes, às lágrimas. Durante as últimas páginas, éramos três mulheres - eu, a minha avó e minha mãe, a filha dela - ainda mais filhas, ainda mais mulheres, ainda mais "mães" e muito mais fortes, porque nos sabemos cultivadoras do que nos permite, sendo muitas, sermos também uma, que é a soma de todas nós.


Abraço - José Luís Peixoto - 680 páginas - Quetzal Editores

A Mãe Que Chovia - José Luís Peixoto - 64 páginas - Quetzal Editores

19 de jul de 2012

Amarração

Núcleo de pessoas que, com o passar dos anos, tornam-se estranhamente desconhecidas. Seio da violência maior e do carinho desmesurado, berço de afetos muitos e de poucas afeições. Sangue compartilhado entre corpos constituídos por materiais intolerantes, vidas distantes em experiências diversas.
Somos sombras irmãs que caminham em direções opostas. Calor, conforto, lágrimas, abraços, reconciliação e abandono. Ódio. Amor. Ódio.
Estamos infelizes à nossa maneira, Liev T.

Sublinhamento

A linguagem é produto do exercício do poder, que entre nós é masculino. Estas divisões clássicas estão a serviço da sociedade masculina, responsável pelo ato de nominar "feminina" a produção da mulher de sensibilidade exacerbada, diariamente contrariada e dimunuída pela lista de haveres domésticos. Deste modo, mesmo a mulher de escritura "masculina" (máximo de elogio), nada mais fez que adotar o ponto de vista cultural da sociedade masculina, de que se origina.


Nélida Piñon, em entrevista a Clarice Lispector.

13 de jul de 2012

Tuitéria

Dançar é invisível, é dentro. O movimento é verbo dos pés desenhando o solo, pontuação da pele acariciada pelo ar.


***

Lamber palavras: ganhar eternidade entre a saliva e o desejo.

***

Silêncio ecoando pelos poros; a ausência de sensações.


12 de jul de 2012

Biblioteca: O Bairro


Me dei as caixas da coleção O Bairro de presente no último Natal. Como as receberia no início do ano, me propus, desde a encomenda, a ler os livros aos poucos - um ou dois por mês. Não aconteceu exatamente assim, mas quase. Devo ter terminado a leitura de todos eles em meados de abril.
Os títulos da coleção homenageiam grandes autores e o bairro construído por Gonçalo M. Tavares não é feito de ruas e avenidas, mas constituído por pessoas-casa. Em cada livro o autor apresenta uma forma de escrever e de raciocinar, algumas inacreditavelmente interessantes e outras maravilhosamente deslumbrantes. Embora eu tenha cinco ou seis favoritos, nenhum dos livros é sequer mediano, todos eles são ótimos. A edição dos livros, as gravuras e capas duras coloridas, os tornam ainda mais desejáveis.
Os livrinhos que compõem a coleção têm poucas páginas, mas nelas as palavras se mostram meios para plurificar. Muitos comentam sobre a capacidade que os livros do Gonçalo M. Tavares têm de inspirar aqueles que produzem arte. Acredito que isso seja observado porque o autor quase sempre nos conduz a deliciosas viagens interiores na companhia dos personagens que transformamos em parte de nós - que, como todos eles, somos também palavra.
Durante a leitura dos livros dO Bairro, senti as palavras reverberarem, porque Gonçalo escreve também com e para o corpo. É com prazer que, meses depois, noto que a releitura de trechos dos livros continuam acendendo fagulhas de algo que havia adormecido em mim.
O Bairro do Gonçalo M. Tavares é, definitivamente, um dos lugares onde gosto de morar.
Li por aí que a coleção não foi encerrada e que, em breve, novos moradores virão. Já preparei bolo, chá e abraços, para receber os novos companheiros da vizinhança crescente.


Caixa O Bairro I: O Senhor Valéry, 82 páginas; O Senhor Henri, 98 páginas; O Senhor Juarroz, 64 páginas; O Senhor Breton e a Entrevista, 68 páginas; O Senhor Kraus, 124 páginas - Gonçalo. M. Tavares - Editorial Caminho

Caixa O Bairro II: O Senhor Calvino, 80 páginas; O Senhor Brecht, 65 páginas; O Senhor Eliot e as Conferências, 86 páginas; O Senhor Swendenborg e as Investigações Geométricas, 124 páginas; O Senhor Walser, 48 páginas - Gonçalo M. Tavares - Editorial Caminho

9 de jul de 2012

Suposição

À distância, observo os braços que se agitam em sufocantes acenos desesperados. Olho para a bela figura com respeito e admiração, com carinho afetuoso e ternura, sem condescendência.
Suponho que tenha sido um daqueles a quem o pai presenteou com bolas, soldados, patins, skates, bicicletas e os brinquedos todos. Dono dos jogos de futebol, dos melhores videogames e também da fragilidade dos colegas do bairro. Líder de muitas outras vidas, o dono da rua.
Suponho que tenha sido o neto mais bonito da vovó e o mais inteligente para o avô, velho poeta a quem os mais próximos chamavam mestre. Que tenha sido o que ostentava as melhores notas da classe, o melhor da escola e dos esportes nos quais se aventurou, também é uma suposição.
Suponho que sorri exibindo a perfeição das arcadas dentárias e que, quando as muitas saudades transbordam, lacrimeja. Que transpira, saliva, e que, eventualmente, espirra e tosse, como todos nós. Suponho que seja um príncipe estranho a todas as nobrezas, membro isolado de uma numerosa e pulverizada casta ainda desconhecida.
Abraçado pelo pequeno mundo de pernas, braços, mãos e palavras várias, um menino. Um menino, só.

23 de jun de 2012

Poema

Empilhar palavras
é construir
um frágil edifício
sem osso.
Poesia é
estrondo deslumbrante,
doce avaria,
o fundo mais fundo
do poço.

20 de jun de 2012

Conta-gotas

Por amor, recuei diante da oferta irrecusável. Sou os tijolos antigos e também as janelas, as duas folhas da porta da sala e as tábuas de madeira acarinhadas pela dança dos pés descalços. O jasmineiro agora sem folhas e a pitangueira que cresce descascante são partes de mim, no quintal. Sou as fendas do tempo e cada um dos desníveis planejados dos quais não posso me desfazer. Tenho no olhar as muitas cores dos azulejos do banheiro mais antigo. Sou a juventude do quarto azul onde compartilho a cama com livros, sonhos e cobertores. Somos histórias entrelaçadas, contadas por um narrador subitamente emudecido. Silêncios compartilhados.
Na madrugada chuvosa, ingrata, ela permite que o céu verta lágrimas sobre o toca-discos que é parte de nós.

9 de jun de 2012

Oração

A mulher à beira do rio contempla o passar das dores.


Prostrada diante do passado líquido, torno-me o silêncio das pedras, distanciada do arrependimento granuloso das terras inférteis.
Habituada ao olhar que menospreza as pessoas e cacos que emergem da nem sempre límpida água corrente, tateio com frieza os abismos que há muito existem em mim.
Preencho com vazios as ausências, com violência desmedida todas as formas de grosseria. Torno-me corpo da agressividade realizável através das palavras e desejos. Existir é uma sucessão de batalhas vencidas por heróis incendiários de florestas inutilizadas.
Não desejo-me outra. Sei dos meus humores e tédios. Admiro-me sobretudo pela quase inacreditável resiliência que me torna superior.


Um passo à frente, ignorada pelo ódio, imergiu nas águas do esquecimento.

5 de jun de 2012

Sublinhamento

Escrever é esquecer. A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida. A música embala, as artes visuais animam, as artes vivas (como a dança e o representar) entretêm. A primeira, porém, afasta-se da vida por fazer dela um sono; as segundas, contudo, não se afastam da vida — umas porque usam de fórmulas visíveis e portanto vitais, outras porque vivem da mesma vida humana.

Não é esse o caso da literatura. Essa simula a vida. Um romance é uma história do que nunca foi e um drama é um romance dado sem narrativa. Um poema é a expressão de ideias ou de sentimentos em linguagem que ninguém emprega, pois que ninguém fala em verso.



Do belíssimo Livro do Desassossego, por Bernardo Soares - Fernando Pessoa

31 de mai de 2012

Livros!

Sinais do mar

Foi um dos livros que desejei desde o lançamento, mas demorei para adquirir - e ainda vivi com ele essa história bonitinha.
Durante a infância, Ana Maria Machado era uma das minhas escritoras favoritas, uma das que mais levava para a casa quando frequentava as bibliotecas dos colégios em que estudei.
Sinais do mar, o primeiro livro de poemas da autora, foi publicado graças ao incentivo da Ruth Rocha, de quem a Ana Maria Machado é amiga - e que também foi uma das minhas primeiras autoras favoritas.
Li os poemas de Sinais do mar em voz alta, num fim de tarde chuvoso, e senti a poesia reverberando pela casa. Ana Maria Machado construiu areia, ondas, siris, barcos e revoadas com as palavras bem postas que não só remetem a imagens e lembranças mas, como acredito que deve ser em tudo o que é poesia, provocam sensações.
Gostei de ter pisado as praias para as quais sei que posso voltar.

Sinais do mar; Ana Maria Machado - 56 páginas - Cosac Naify



Quantas madrugadas tem a noite

Eu nunca estive em Luanda. Talvez passe a vida toda sem poder dizer que estive em solo angolano e, no entanto, posso dizer que tenho amigos que nasceram e viveram lá.
Quantas madrugadas tem a noite foi meu primeiro encontro com a prosa do Ondjaki, de quem, até então, só conhecia os poemas pelos quais me apaixonei com imensa facilidade.
O livro narra o encontro da estória do AdolfoDido - que, entre uma cerveja e outra, acaba por embriagar-nos entre as palavras sem que saibamos precisar quando e como aconteceu - com muitas outras estórias (ou histórias?) de muitas outras gentes maravilhosamente interesantes.
Em algumas páginas de Quantas madrugadas tem a noite me senti observadora de um universo fantástico que pareceria irreal se a poesia não o tivesse tornado deliciosamente humano. Foi nas passagens em que me senti próxima ao AdolfoDido, que narra os acontecidos e os desacontecimentos, que mais me emocionei. Em alguns momentos me senti como o terceiro elemento, mudo, à mesa, com ouvidos atentos e olhares apurados. Também pude sentir como se AdolfoDido tivesse a minha voz, como se compartilhássemos as dores de desexistir e o deslumbramento ante a beleza encontrada no improvável, porque a sensibilidade permite enxergar além da grandiosidade do óbvio.
Terminei a leitura de Quantas madrugadas tem a noite aos prantos, em lágrimas que misturavam saudade e gratidão.
Não é sempre que nos encontramos em um espelho que parece distante do olhar - porque é dentro.

Quantas madrugadas tem a noite; Ondjaki - 203 páginas - Editorial Caminho



A Autobiografia de Alice B. Toklas

Li A Autobiografia de Alice B. Toklas porque, além de ter gostado muitíssimo de Três Vidas, também escrito pela Gertrude Stein, faz parte da coleção Mulheres Modernistas - que é linda e constantemente ampliada, para desespero e felicidade dos leitores-colecionadores, entre os quais me incluo.
O posfácio, escrito pelo Silviano Santiago, seguido por algumas páginas de sugestões de leitura, me fizeram desejar ler ainda mais do que Gertrude Stein escreveu e também muito do que foi escrito sobre ela.
Fala-se muito sobre o convívio de Gertrude Stein e Alice com os artistas que viviam em Paris, assim como sobre a relação supostamente (?) homossexual que havia entre entre elas. As descrições dos encontros com personalidades como Picasso e de todas as excentricidades daqueles artistas importantes para a época, que frequentavam a casa de Gertrude Stein, são sempre repletas de observações que as tornam ainda mais interessantes. Ainda assim, não considero que as aventuras parisienses sejam o melhor do livro.
A Autobiografia de Alice B. Toklas - que, na verdade, é quase uma autobiografia da Gertrude Stein - retrata um período de guerra, em que Getrude e Alice decidem tornarem-se úteis aos militares, que transportavam entre uma cidade e outra, em um carro dirigido por Gertrude, no qual levavam também notícias, mantimentos e conforto às famílias daqueles que se ausentavam em função dos combates.
A Autobiografia de Alice B. Toklas é também um livro sobre a coragem e as frustrações da escritora, sobre História, arte e estórias de uma Paris que permanece iluminada e luminosa nas páginas que a trazem até nós.

A Autobiografia de Alice B. Toklas; Gertrude Stein - 288 páginas - Cosac Naify



Oito ou nove ensaios sobre o Grupo Corpo

Fiz a leitura de Oito ou nove ensaios sobre o Grupo Corpo durante a semana em que revia, em vídeo, alguns dos meus espetáculos favoritos do grupo fundado pelos irmãos Pederneiras.
Foi a primeira vez que estudei teoria e prática simultaneamente e isso serviu para reafirmar a minha convicção de que dançar é utilizar o gesto para expressar o pensamento - por incrível que possa parecer, não são todos os que dançam que pensam assim.
Nem todos os ensaios que compõem o livro foram escritos por pessoas que vivem (d)a dança. Não é o primeiro livro organizado pela Inês Bogéa que reúne textos de autores considerados leigos em dança; a multiplicidade de olhares torna o livro ainda mais interessante, polifônico.
A história do Grupo Corpo, já contada em outros livros, é um exemplo para aqueles que, como eu, vivem (d)a dança. Ler Oito ou nove ensaios sobre o Grupo Corpo foi uma ótima oportunidade para refletir sobre os caminhos a partir de novos olhares. Talvez tenha sido, como todo livro que considero "de trabalho", mais um daqueles livros que alteram, ainda que minimamente, meu modo de caminhar.

Oito ou nove ensaios sobre o Grupo Corpo; org. Inês Bogéa - 224 páginas - Cosac Naify



Canções Mexicanas

Em três dias da mesma semana, li e reli Canções Mexicanas, do Gonçalo M. Tavares. Em cada uma das leituras, encontrei um livro diferente. Talvez tenha sido efeito do Mezcal que, sem que soubesse, compartilhei com o narrador.
Em princípio não encontrei nele muitas similaridades com os outros livros escritos pelo Gonçalo M. Tavares. Quem conhece sua escrita sabe que cada frase pode multiplicar-se por uma infinidade de significados e ganhar novas formas a partir de nossas reflexões. Em Canções Mexicanas a multiplicação de significados e as tranformações acontecem de um modo menos explícito, mas acontecem.
Muito do que, em Canções Mexicanas, é descrito como fruto de uma imaginação alterada pelo efeito do álcool, assemelha-se com as vivências assombrosas que compartilhamos. A sociedade e os seres humanos são assustadores - e talvez o Gonçalo M. Tavares de Canções Mexicanas não seja tão diferente assim...

Canções Mexicanas; Gonçalo M. Tavares - 96 páginas - Relógio D'Água



O menino que mordeu Picasso

Não sei exatamente o que esperava de O menino que mordeu Picasso mas, durante a leitura, o livro pareceu menos do que esperei.
A edição é muito bonita, com ilustrações belíssimas e muitas fotografias, mas tive a impressão de que o livro serve mais à memória - ou ao ego - do Antony Penrose que ao prazer de contar uma história.
Talvez O menino que mordeu Picasso sirva como ponto de partida para semear entre as crianças o desejo pelo conhecimento da arte, pela obra de um artista. Talvez o livro cumpra, assim, um dos objetivos da leitura, que é enxergar o outro - ainda que o outro seja apenas um senhor que viveu próximo a um artista considerado brilhante; um senhor a quem, muito provavelmente por conta da pouca idade, o artista não pôde iluminar.

O menino que mordeu Picasso; Antony Penrose - 48 páginas - Cosac Naify



Claraboia

Há alguns livros do Saramago, por quem sou apaixonada, de que gosto menos. Por isso, mesmo tendo adquirido Clarabóia - com acento - assim que foi lançado, esperei alguns meses até encontrá-lo. E que surpresa maravilhosa Saramago nos deixou!
Vendido como "o livro perdido de José Saramago" (porque sensacionalismo vende e, independente dele, Saramago merece ser ainda mais lido), Clarabóia foi escrito quando o autor tinha menos de trinta anos.
Mesmo permeado por estórias de modos de viver que podem ser considerados subversivos, Clarabóia não é um livro explicitamente político, como outros do autor. Embora pareça diferente dos outros livros do Saramado, é possível ouvir, em cada uma das linhas, ecos do autor que, muito tempo depois de Clarabóia ter sido ignorado por uma editora, viria a receber o prêmio Nobel de literatura.
Clarabóia não é um livro sobre cegueira, sobre a morte da morte, sobre o sistema falho ou sobre religião. É um livro sobre a vida. Estórias de pessoas que vivem em um mesmo edifício ou que têm relações com aqueles que vivem ali. Clarabóia é um livro sobre pessoas vivendo. Um livro sobre pessoas através das quais aprendemos o outro, que só existirá, de fato, se nos dispusermos a observar.

Claraboia; José Saramago - 384 páginas - Companhia das Letras

29 de mai de 2012

Re(en)canto

Deitaram abaixo
os tijolos das férias
os restos da infância
e vértebras da história.

Existir
aqui
me separa
de
mim.

21 de mai de 2012

Irina


No fim da semana passada, ou na noite do último sábado, para que a descrição seja exata desde a primeira linha, eu e meu irmão estávamos aos sempre indesejáveis cento e setenta quilômetros de distância, mas assistíamos ao mesmo filme, em televisores de voltagens, tecnologias e tamanhos diferentes.
Durante os intervalos comerciais, trocávamos impressões via SMS - através das quais, por norma, trocamos palavras de amor ou humor (que, como nós, nasceram do mesmo ventre), utilizando rimas e ritmos de cordel.
O filme - na verdade um telefilme, uma produção nacional realizada com o apoio das estranhas e incompreensíveis, mas sempre benvindas, políticas públicas - era uma crônica que, com muita poesia e delicadeza, abordava, entre outros temas que me são caros, a solidão. A personagem principal, apaixonada por literatura e por uma cidade que conheceu a partir da literatura, mostrava-se um grande espelho, daqueles nos quais, por parecer mais magra ou melhor iluminada, gosto de me ver.
Como se não bastasse o arrebatamento provocado por cada uma das frases e olhares, por todas as situações e pelo desespero que conheço tão bem, porque sei que o abandono habita a casa sombria ao lado da varanda e das janelas abertas da solidão; uma das últimas cenas do filme foi gravada em um dos poucos restaurantes paulistanos que costumo frequentar. Recebi a familiaridade como um abraço carinhoso, embora o desconforto provocado pela quase auto-observação à distância esteja dando o que pensar.
Logo depois da última cena, meu irmão respondeu ao meu "Lindeza!" com um menos breve "Puta mina deprê...".
Quase 48 horas depois, continuo apaixonada por ela.


Por mim.



O título do filme é Irina e foi transmitido pela TV Cultura. Não sei se será comercializado ou se será transmitido outra vez.

15 de mai de 2012

Poetaria I


no princípio: ego
e quando vaidade
saborosa esperança

sermões sem língua
fugas do intelecto

ser mão no olhar
e afeto sem dedos
dados invisíveis no tempo
dores e risíveis horas

cores que vão embora
sob a sensibilidade ébria
voltamos ao princípio
para iluminascer


Primeiro exercício de Poetaria; Ígor e eu.

12 de mai de 2012

09-05-2012


à beira do princípio
nossos olhares-verbo
meu valoroso tesouro

na discrição do gesto
o impossível desaconteceu

7 de mai de 2012

Vírgula


Enquanto agonizo, você dorme. A claridade da lua que atravessa as frestas janela é mais consistente que todas as minhas certezas. Estou exausta do que sou. Fui condenada a pesadelos despertos porque parte de mim, talvez entre a pele e os ossos, ou sob as vísceras, se recusa a sonhar.
Não quero desistir dos nomes absurdos que inventamos para os filhos que não teremos e nem dos passeios imaginários por praias abarrotadas que, juntos, abominamos. Não desejo que nossas afirmações sejam submetidas a um único sim - mesmo que, para você, seja sempre e infinitamente sim. Sim.
Não sei como tocar com meus dedos gelados o calor da mão que pousa sobre o meu ombro. Preciso da pele para sabê-lo, de poros e pelos que indiquem o sabor dos descaminhos nossos. Quero o abraço do futuro interminável, estou cansada de recuar. Quero somar nossos livros para dividirmos as bibliotecas e compartilharmos todas as idéias possíveis e sonhos irrealizáveis. Quero dançar descalça sobre as linhas que escreve e decorar as frases, olhares, expressões e gestos que te compõem. Quero me apropriar de tudo aquilo que me oferece, para torná-lo também meu.
Quando você despertar, morta e ressurreta ao terceiro minuto, serei outra. Durante as primeiras horas da segunda-feira de um outono que é quase inverno, saberá que me descobri alguém que deseja que você seja mais que uma mala que, depois da viagem, passa alguns dias decorando minha sala, embaixo do sofá.

29 de abr de 2012

Biblioteca: livros e histórias

Dublinesca

Além de contar a estória de um homem em conflito com as próprias escolhas e de suas relações com a família que parece não compreendê-lo, com os amigos escritores, com o mercado editorial e com os livros, Dublinesca é, como o título insinua, um breve passeio por Dublin, por autores que lá viveram e por livros ambientados na cidade.
Embora Ulysses, de James Joyce - que ainda não li - seja a referência mais mencionada em Dublinesca - a estória do livro tem profunda relação com o 16 de junho joyceano -, o livro é, para mim, aquele que me levou a Beckett, a quem, não sei por que, oferecia resistência, e que, depois de Dublinesca me conquistou para sempre através do maravilhoso Primeiro Amor.
Passei muito tempo questionando a menção a Vila-Matas como um autor que escreve para escritores e talvez só agora tenha compreendido o real sentido do título atribuído ao autor. Não me senti mais ou menos escritora enquanto lia os livros que Vila-Matas escreveu mas, depois deles, foi impossível conter o desejo de conhecer os autores que ele menciona.
Vila-Matas não escreve para colecionadores de livros, escreve para os leitores. Escreve para que os livros dos bons autores vivam mais.

Dublinesca; Enrique Vila-Matas - 320 páginas - Cosac Naify



A Casa, a escuridão

Encontrei A Casa, a Escuridão em um sebo. Quando me ofereceu o livro, que finalmente "constava no sistema", a livreira disse que o exemplar havia sido assinado pelo autor. Essa informação soou como a descoberta de um tesouro no qual eu só acreditaria quando estivesse ao alcance dos meus olhos.
Ao abrir o livro, me deparei não com uma assinatura, mas com uma dedicatória do José Luís Peixoto a uma artista portuguesa bastante conhecida e reconhecida, que provavelmente foi professora do autor na universidade. Não sei que caminhos trouxeram o livro até mim, mas, embora tenha pago por ele, recebi como um presente.
A história da chegada do livro às minhas mãos está relacionada com os temas que o autor aborda nos poemas de A Casa, a Escuridão. José Luís Peixoto escreve sobre, e com, afeto. São poemas sobre inquietudes, família, amores de toda a sorte e aflições. A Casa, a Escuridão é feito de poesias com sabor e corpo, de poemas que, mais que convidar à contemplação, evocam gestos.
Gosto do modo como os poemas me tocaram, de ter me sentido lida através deles. Em muitas páginas senti o beijo da poesia, que José Luís Peixoto propõe, em um dos poemas mais saborosos, porque é quase físico, na quarta capa: "pousa os lábios sobre a página. pousa os lábios sobre/ o papel. devagar, muito devagar. vamos beijar-nos."

A casa, a Escuridão; José Luís Peixoto - 77 páginas - Temas e Debates



Luto e Melancolia

Nutro profundo desprezo pela atual glamurização e banalização das patologias psicológicas/psiquiátricas, mas, porque sou humana e porque trabalho com e para outros seres humanos, me interesso por elas. Por isso, e também porque o único prêmio que Freud recebeu em vida foi graças ao seu desempenho como escritor, e não como criador da psicanálise, decidi que a belíssima e recém-lançada edição de Luto e Melancolia seria um bom modo de conhecê-lo além das breves citações em artigos dispersos.
O texto introdutório e o posfácio foram ótimos auxiliares para a compreensão do texto do Freud - que, apesar de dar título ao livro, ocupa poucas páginas -, bastante acessível para leigos ou quase.
Diz-se que esta é a melhor tradução de Luto e Melancolia, porque foi vertida a partir do alemão, e não do inglês, como as anteriores. Não posso contestar a informação ou criticar a tradução, mas penso que talvez tenha sido desnecessário mencionar supostos equívocos cometidos em traduções anteriores no livro que é também uma homenagem a Marilene Carone, a "tradutora de Freud" - que foi companheira do "tradutor de Kafka" - que faleceu antes de traduzir, como tencionava, a obra completa de Freud.
Além de fonte de inspiração, de conhecimento e de auto-conhecimento, Luto e Melancolia tornou-se o primeiro encontro de um longo romance, a certeza de que Freud é possível para mim.

Luto e Melancolia; Sigmund Freud - 144 páginas - Cosac Naify



Uma criatura dócil

Não sei se pelo número de páginas do livro ou pela raiva que senti de mais um anti-herói (com acento, porque é meu) do Dostoiévski, lembrei muito de "Noites Brancas", do mesmo autor, durante a leitura de Uma criatura dócil, obra que, em uma edição caprichada, vem acompanhada por ilustrações do Lasar Segall.
Me atraio por estórias que acontecem também nas entrelinhas, além das obviedades. Uma criatura dócil é feito, sobretudo, de silêncios, de ausências a serem preenchidas pelo leitor - que dará ao livro a profundidade e a extensão que a própria experiência permitirem. Por isso, embora não tenha sido o meu caso, porque já li outros livros do Dostoiévski, penso que Uma criatura dócil pode ser um ótimo modo de conhecer e gostar do autor que é ótima companhia - e, também por isso, eterno.

Uma criatura dócil; F. M. Dostoiévski - 96 páginas - Cosac Naify



Livro

É difícil hesitar em trazer para a casa um livro do José Luís Peixoto mas, com Livro, apesar da capa belíssima, que remete a azulejos portugueses nos quais ocultam-se letras e sinais, isso aconteceu.
Durante a pré-venda, em lugares nos quais eu procurava, muito se dizia sobre Livro ser um livro que abordava a emigração portuguesa. O fundo histórico me remetia imediatamente a qualquer obra do Saramago, mas fazia destoar da idéia (com acento) que faço de um romance do meu não menos amado José Luís Peixoto.
Preferi o empirismo ao pré-conceito e não me arrependi.
Livro, de fato, conta a história de emigrantes, mas é um livro sobre o tempo, como escreveu José Castello no belo texto da orelha do livro, e também, talvez principalmente, um livro sobre o amor. E é mesmo um livro diferente dos demais escritos por José Luís Peixoto, mas tão bom quanto qualquer um deles.
A primeira parte do livro soa estranha para o leitor que julga estar acostumado com a escrita do José Luís Peixoto, mas ela se justifica posteriormente. Experimentei essa mesma sensação de transformação a partir da justificativa posterior recentemente, enquanto lia O Som e a Fúria, do Faulkner.
Se no começo do livro, apesar de confusa por pensar que José Luís não estava ali, me encantei com as personagens e situações, com as passagens fantásticas e poéticas que permeavam os acontecimentos, nas páginas finais não era capaz de nada além de, a cada linha, pensar em quão genial é o autor que, exercendo seu amor ao ofício, reiventou-se a de maneira brilhante através das palavras, alimentando "a ânsia insaciável e inúmera de ser sempre o mesmo e outro", como escreveu Pessoa, outro gênio português.

Livro; José Luís Peixoto - 288 páginas - Companhia das Letras



Meu filho, meu besouro

Meu filho, meu besouro foi um dos primeiros exemplares da ainda germinante biblioteca da vovó Clélia que, aos 81, apaixonou-se por livros infantis - ou tornou-se um ótimo pretexto para que eu possa ter mais deles em nossa casa.
É um livro de poesias para crianças, que soam como estórias divertidas daquelas que minha mãe e meus avós contavam. A intimidade do Cadão Volpato, que dedica o livro aos filhos, que o inspiraram, com a linguagem e o universo infantis é percebida a cada linha e também nas ilustrações que, ao contrário do que pode esperar-se, não são coloridas.
Meu filho, meu besouro é um livro para as crianças de hoje, para as crianças que, em nós ou no nosso entorno, queremos - ou deveríamos - alcançar.

Meu filho, meu besouro; Cadão Volpato - 40 páginas - Cosac Naify

27 de abr de 2012

Sublinhamento


... E aquele
Que não morou nunca em seus próprios abismos
Nem andou em promiscuidade com os seus fantasmas
Não foi marcado. Não será marcado. Nunca será exposto
Às fraquezas, ao desalento, ao amor, ao poema.


Excerto de ZONA HERMÉTICA, Manoel de Barros.

23 de abr de 2012

Dia Mundial do Livro: Cosac Naify e amor

Tenho uma relação de amor e amor com os livros desde que, aos três anos (gosto de enfatizar a idade, para reafirmar o orgulho do papai), aprendi a ler. Sou apaixonada por palavras faladas, cantadas, ditas aos berros, sussuradas, digitadas e postas na tela ou barulhentamente vertidas por lindas e antigas máquinas de escrever. Gosto de gramática, me deixo encantar por imagens poéticas e reverencio parágrafos bem escritos.
Sou também uma leitora taurina. Gosto de edições tratadas com cuidado, de livros bonitos e de traduções bem feitas. Gosto de prefácios e posfácios tão bem escritos quanto o texto do autor principal. Gosto de capas duras e de bons projetos gráficos. Gosto do cheiro dos livros novos tanto quanto gosto do aroma de raridade dos livros pelos quais sou encontrada nos sebos. Gosto de grifar meus livros, de olhar para as minhas estantes como partes da minha história, de ter nos meus livros uma extensão de mim.
Embora goste muito das edições da Cia. das Letras, que publica grande parte dos meus autores favoritos, confesso que, entre as editoras brasileiras, minha favorita é a Cosac Naify.
A Cosac, além de publicar belíssimos livros de Arte - até de Dança, tão raros no Brasil - que sempre me foram muito úteis, faz com que eu me sinta uma leitora respeitada porque executa uma seleção impecável dos autores que publica e porque trata os livros - e as pessoas - com a gentileza que merecem.
Tenho comprado muitos livros nas promoções da loja virtual da Cosac Naify. Em uma dessas compras, um livro que custa R$35, pelo qual paguei R$17, veio com um pingo de cola no meio de uma das páginas. Era um livro de poemas e a cola fez com que algumas palavras se perdessem.
Liguei para a editora e um rapaz gentilíssimo solicitou que eu enviasse um e-mail para que meus dados fossem localizados, mas, mesmo antes de saber a que livro me referia ou quanto tinha custado, disse que enviaria um novo exemplar e que o carteiro viria à minha casa para coletar o livro danificado. Rápido e sem problemas, má vontade ou maiores questionamentos, assim aconteceu. O modo como fui tratada reforçou a ótima imagem da editora e engrandeceu minha admiração por ela.
Hoje, Dia Mundial do Livro, a loja virtual da Cosac Naify disponibiliza 300 títulos pela metade do preço. Já escrevi - aqui, no Skoob e nos outros blogs - sobre muitos dos livros que estão em promoção.
Aproveitem por vocês e por mim, que já excedi a cota mensal.



Esta postagem não foi paga. Comprei todos livros da Cosac Naify para os quais declarei amor e os (muitos) amores cosacnaifyanos que virão nas próximas postagens. Recentemente tive uma declaração de amor rejeitada por um concurso de resenhas realizado pelo site da editora mas, como amor verdadeiro é também incondicional, continuo amando-os mesmo assim.

12 de abr de 2012

Amanheceu mais tarde


Amanheceu mais tarde. Não foi pela ausência da sempre magnífica luz solar que pouco depois das seis já atravessa nossas janelas, tampouco em decorrência da perda física que o passar dos segundos transforma em horas intermináveis - como se, condensada, a passagem do tempo pudesse tornar-se um único dia composto por meses e anos que só a controladora maldição humana dos calendários e relógios pôde registrar.
Foi a angústia, manifestada pela ansiedade imobilizadora em confronto com a dança do pensamento, quem me cegou. Ainda tinha os cílios, toda a pele da face e os lábios maquiados no momento em que nos separamos. Usava minha máscara resistente à água quando as pálpebras que cobriam os olhos cansados deixaram de se mover.
Durante a separação, exilamo-nos naquilo que nos unia. Do exterior, apenas a invisível felicidade luminosa dos sons; as nossas músicas, a minha voz que também é sua, a tua voz que descobri ser minha. As similaridades repetidas à exaustão.
Espalhamos papéis, sensações e cores. Tateamos palavras para descobrir novas delícias do inconstante, mas sempre perseguido, estar - que, para nós, sempre pareceu mais divertido que o engessamento do ser. Descobrimos que a frieza congelante que nos envolve seria sempre pouca e pequena para aplacar a calorosa chama que nos une. Convertemos a triste condição de abandono em solidão, musa amada.
Ao fim do menos longo dos dias mais longos, nos reconhecemos ao compartilhar o mesmo espelho. Sob o pôr-do-sol, que torna visível a reciprocidade dos nossos amores, somos eu.

10 de abr de 2012

Amanhã


Somam-se à pilha de livros ainda não lidos, a de filmes não vistos e a de textos imaginados ou rascunhados, ainda por escrever. As descrições impossíveis e os quase-amores risíveis. A busca pela voz não encontrada e o indesejável eco que, ao resplandecer, [re]dimensiona o vazio que multiplica-se desordenadamente e não tem fim.
Há ainda os abraços não dados e olhos que, enxergando, tornaram-se, por força do tempo e fraqueza poética, incapazes de ver. Misturados às receitas não testadas, as idéias acentuadas e os afagos em desuso. Os braços inúteis no corpo inerte. A maciez da pele abandonada que envolve também as artérias em que circulam os desejos.
Novos modos, velhos medos. Alheia aos temores, abundâncias e períodos escassos: a vida.
Uma saborosa sucessão de clichês.

2 de abr de 2012

Casa nova!


Ainda organizando os objetos e arrastando-os por todos os cantos, até que a decoração fique ainda mais parecida comigo.
Minha gratidão a arquiteta Fabiana Borges, pela generosidade e pela paciência.
Uma semana de dias luminosos para todos nós!

26 de mar de 2012

Primeiro Amor - Beckett e a primeira vez

O projeto gráfico do livro, apesar de aparentemente simples, é dos mais bonitos que conheço - faz lembrar dos livros-arte que os aficcionados desejam ter em suas estantes. Some-se à beleza do objeto (o livro) o nome de peso do autor, Samuel Beckett, e o resultado pode parecer grandioso o suficiente para inibir o leitor que ainda não conhece a obra do escritor dublinense que foi um dos fundadores do teatro do absurdo e amigo de James Joyce.
O título, Primeiro Amor, empresta doçura a toda a imponência e convida o leitor a um passeio pelas páginas costuradas em que as palavras, à excessão do início da frase de abertura, posicionam-se sempre à esquerda de quem lê.
Em um texto quase sempre irônico, sarcástico e deliciosamente bem escrito, permeado por sentimentos humanos - legítimos, embora nem sempre socialmente aceitáveis- , Beckett conta uma história de amor que acontece através do silêncio - ou apesar dele.
Primeiro Amor não é um livro de respostas, mas deixa o leitor - que devora suas poucas páginas em minutos - repleto de perguntas sobre as personagens que não são definidas como vítimas ou herois de uma sucessão de encontros marcados pelo incômodo e também pela inevitável dureza da sinceridade. É o retrato da reverberação de um desconforto transformada em beleza literária - aquele tipo de beleza que os grandes autores são capazes de conceber.

Primeiro Amor; Samuel Beckett - 32 páginas - Cosac Naify

Viver não é preciso

Um dos grandes assombramentos da vida é a constante exposição às intempéries. Viver não é preciso. Estar sujeita a tempestades é um prazer assustador.
É certo que os ventos dissipam os males, mas também deixam um rastro de desordem em tudo aquilo - e entre todos aqueles - que, com o passar dos anos e o aflorar da utilidade, tornou-se essencial.
Ao pobre hábito de sobreviver ao sabor das marés, em uma embarcação silenciosa cada vez mais reduzida, denominou-se amadurecimento.
Os outros, portadores do inferno ambulante que, no passado, lançava-se como luz e tormenta, já não são sequer levados em consideração.
Somos poucos e únicos. Reduzimo-nos a efemeridades.
Somos nenhuns.

16 de mar de 2012

ombro contra ombro em violência desmedida. absurdez do gesto.
a desproporção do corpo cansado que cambaleia sobre o ego. a outra. o outro. a nossa senhora desatadora dos nós.
nós.
lamento: você.

12 de mar de 2012

Vazante

Estou habituada a enviar cartas de papel, mas também envio cartas virtuais. Em uma delas escrevi:

"Há uma grande diferença entre o modo como as pessoas precisam se sentir amadas e a maneira que escolhemos para demonstrar amor. Para encontrar a sincronia precisamos de tempo e sensibilidade, mas nem todo mundo está disposto a isso."
...
"Eu queria muito que o Bauman estivesse errado e que tivesse escrito todos os livros sobre afetos e relações líquidas à toa, mas sei que essa ausência de laços afetivos sólidos (inclusive nas famílias) é uma marca do nosso tempo."
...
"É bem verdade que somos todos sozinhos. Só nós sabemos sobre absolutamente tudo que vivenciamos e somos a única companhia certa pra nós mesmos até o último dos nossos dias. Parece cruel ou negativo, mas é assim."

A carta foi recebida no dia 12 de dezembro e, ainda que fizesse parte de uma troca relativamente recente, mas constante, não foi respondida.

Bauman venceu.

11 de mar de 2012

Biblioteca: declarações de amor

Assim Falou Zaratustra

Faz mais de dez anos que encontrei Nietzsche pela primeira vez, a partir de Zaratustra. Entre a primeira leitura, de uma edição publicada por uma editora reconhecida pelas péssimas traduções, e o presente reencontro (através da minha amada Cia. das Letras), há uma infinidade de transformações.
Se durante a primeira leitura mal comprrendi a caminhada que faz de Zaratustra o Zaratustra, a releitura serviu para, além de compreender a história, reafirmar o que percebi na primeira leitura, praticamente toda limitada a excertos citáveis, capazes de estimular a reflexão.
Nietzsche me ensinou a pensar a dança. Através de Zaratustra, já na primeira leitura, passei a perceber a dança não só como prática diária e profissão, mas também como metáfora para absolutamente todos os acontecimentos vividos. Viver é dançar. Existir é movimentar-se e dedicar dias e noites ao deus bailarino.
Deus está morto. Eu danço.

Assim Falou Zaratustra; Friedrich Nietzsche - 360 páginas - Companhia das Letras


Saramago - Biografia

Antes de começar a ler o Saramago visitado por João Marques Lopes li uma crítica - negativa - ao livro, em um site dedicado a resenhas. Confesso que isso me desanimou no passeio pelas primeiras páginas que, como dizia a crítica, pareciam enfadonhas.
Fiquei feliz em constatar que o escritor da resenha - como eu, no princípio - estava incrivelmente equivocado em relação ao livro.
Aos poucos a leitura se torna prazerosa, repleta de histórias e impregnada pela História acontecida durante o período em que Saramago viveu. É como se a cronobiografia dedicada ao autor (José Saramago: a consistência dos sonhos, escrita por Frenando Goméz Aguilera), que foi uma das muitas fontes de pesquisa do João Marques Lopes, tivesse sido amplificada através das palavras.
Em Saramago estão, além das história de vida do grande autor, suas inspirações e aspirações, com destaque para os períodos de concepção dos livros que viríamos a amar.
É certo que muitas outras biografias e estudos virão, mas Saramago: Biografia cumpre, com louvor e beleza, seu papel.

Saramago - Biografia; João Marques Lopes - 248 páginas - Leya


Memórias inventadas para crianças

Ganhei o livro pouco depois de ter visto o belíssimo documentário Só dez por cento é mentira, dedicado a Manoel de Barros. Foi como se Memórias Inventadas Para Crianças tivesse sido escrito com a intenção de transpor para as páginas toda a poesia transbordante que permeia o filme, e a vida, do autor.
Memórias inventadas para crianças, como outros livros do Manoel de Barros, tem ilustrações feitas por Martha Barros, sua filha. É um livro-vida. Um livro-família. Um livro-abraço. Um delicioso passeio em prosa em companhia do menino que tem olhar-poeta.
Minha avó também leu. Como eu, terminou apaixonada.

Memórias inventadas para crianças; Manoel de Barros - 24 páginas - Planeta Jovem


Raiz de Orvalho e outros poemas

Mia Couto diz ter hesitado até aceitar a republicação do livro Raiz de Orvalho e outros poemas, argumentando que já não se vê em parte daquilo que nele está escrito.
Embora pareça diferente dos outros livros de poemas do autor, Raiz de Orvalho está impregnado por imagens e metáforas que Mia Couto evoca ao escrever em prosa.
Tenho a impressão de que, independente da forma em que seja moldada a escrita, o mundo observado por Mia Couto será todo e sempre poesia.
Amém.

Raiz de Orvalho e outros poemas; Mia Couto - 234 páginas - Caminho


Memorial do Convento


Apesar de ser um dos livros mais famosos do José Saramago, Memorial do Convento está entre os últimos lidos por mim.
No livro que conta a história de Baltazar e Blimunda estão também um pouco da história das relações humanas, das instituições e práticas religiosas e também de monumentos e acontecimentos históricos de Portugal.
Baltazar, que tem a força que muitas vezes nos falta, é persistente, idealista, quase ingênuo, mas também amante apaixonado e companheiro de Blimunda, mulher fiel e inteligente, sensível, poderosa e quase inacreditavelmente forte.
Memorial do Convento é um pouco da história de cada um de nós. Dos ideais humanos e absurdos da humanidade. Do mundo abundante em guerras silenciosas. Da civilização individualista e pouco inteligente que, em busca de falsas grandiosidades, insiste em ruir.

Memorial do Convento; José Saramago - 352 páginas - Bertrand Brasil

2 de mar de 2012

Marcadores

"O essencial da arte é exprimir; o que se exprime não interessa."

Fernando Pessoa



"O olho do homem serve de fotografia ao invisível, como o ouvido serve de eco ao silêncio."

Marchado de Assis





Recordações do templo dos livros, ou da hospedaria provisória, que é ponto de passagem e praça de encontro dos amores.

14 de fev de 2012

Conto os dias para trás e percebo que as dolorosas escolhas aparentemente equivocadas foram também as mais felizes.




Felicidade é ser.

11 de fev de 2012

Sobre: viver

Constrói a exatidão do movimento com a delicadeza do gesto. Iluminasce a partir dos ossos até que, através dos músculos, seja tornado alma, âmago, ânima... ar.
Dançar é sentir o solo sob os pés e afastar-se dele a partir dos joelhos.
Existir é impulso. Ser é possuir no corpo toda música percebida pelas pontas dos dedos das mãos.
Tateia os dias como o desabrochar das orquídeas que lentamente devolvem ao mundo a infinita beleza das cores.
Enxerga e aceita a imprecisão do tempo:
a isso denomina [sobre]viver.

7 de fev de 2012

(eco)ar

Não elevar a voz, ainda que para satisfazer o apetite insaciável do ego cada vez mais gordo. Permanecer monocórdio, a despeito de toda e qualquer alegria festejável. Não há felicidade que resista à vigilância invejosa, carente de desilusão e desespero.
O prazer, feito de pele e delicadeza, é um sussurrar vagamente luminoso, imerso nas delícias da solidão.

5 de fev de 2012

Biblioteca: O Som e a Fúria


Demorei muitos meses para me convencer de que precisava ler Faulkner pela primeira vez, e alguns outros meses para decidir tirá-lo da estante. O primeiro incentivo veio do fato de o José Luis Peixoto, um dos meus autores favoritos, ser declaradamente fã da literatura do Faulkner (e o Peixoto é daqueles que, como eu, marca na pele as declarações de amor).
Pouco tempo depois, encontrei a edição maravilhosa da Cosac Naify, editora que tem meu amor eterno, - e nem me paga para escrever isso - pela metade do preço. Foi assim que o livro chegou até mim.
O Som e a Fúria foi um caso raro de paixão despertada mais por admiração que por identificação ou pertencimento.
Gosto do fato de o livro ter sido escrito durante um período de reclusão, após um fracasso do autor, e me interesso pela temática abordada. As infelicidades familiares, na literatura, me atraem; e as manifestações do racismo, hoje velado como se fosse moralmente inaceitável, são tão chocantes nos livros quanto na padaria ou na fila do banco.
As primeiras páginas não foram fáceis. A primeira parte do livro é constituída por diálogos que muitas vezes parecem ininteligíveis. A leitura das páginas narradas por Benjy, que sofre deficiência mental, foi de uma diculdade angustiante.
Superado o obstáculo, que posteriormente justifica-se necessário e desejado, agradeci, a cada virada de página, pela oportunidade de ter em mãos parte da obra um autor que - a despeito dos prêmios ou títulos que, muitas vezes, podem parecer assustadores - foi genial.
Ler O Som e a Fúria é, além de desfrute, uma aula. São muitos livros em um só. Muitos modos de escrever e de descrever. Um delicioso passeio por diferentes estilos e pontos de vista.
As estórias das personagens de O Som e a Fúria são tão tristes quanto a maior parte das relações humanas, se observadas com atenção. Sob o olhar de William Faulkner, a tristeza, neste livro, tornou-se bela.
Me apaixonei pelo autor, por isso quero (ler) mais.


O Som e a Fúria; William Faulkner - 336 páginas - Cosac Naify