20 de out. de 2012

Biblioteca: Górki (auto-biografia com hífen)

Antes de começar a ler Infância, que é o primeiro volume da auto-biografia, li um pouco -muito pouco - sobre as controvérsias acerca do posicionamento político de Górki, sobre suas relações com Stálin e com o stalinismo. Mesmo depois de iniciar a leitura, não aprofundei meus conhecimentos históricos para além dos ótimos prefécios e posfácios escritos por Rubens Figueiredo e Boris Schnaiderman, responsáveis também pela tradução da auto-biografia - Boris Schnaiderman traduziu Ganhando meu pão e Rubens Figueiredo os outros dois livros.
Fui ao encontro de Górki em busca de literatura e encontrei literatura das melhores, deslumbrante, daquela que os russos sabem fazer.
Li um livro por mês, em maio, junho e julho passados. Temo ler ininterruptamente muitos tomos do mesmo autor e, sem me dar conta, permanecer imersa em seu universo, presa - como se depois dele eu pudesse estranhar a ponto de repelir todos os outros escritores. Entre um livro e outro, preciso de passeios por outras letras e paisagens escritas, por outros lugares de mim.
A relação que Górki parece ter estabelecido com as mulheres é notável, mesmo para quem - por viver em outro planeta? - não é sensível ao feminismo. No primeiro livro ele se mostra muito ligado à mãe e, posteriormente, à avó, por quem cultivou uma admiração quase devota. Na ausência das mulheres da família, e com o avançar da idade, surgiram o encantamento pela beleza feminina e também as manifestações de indignação com acontecimentos e palavras que denegriam as mulheres. Em algumas passagens dos livros, Górki agiu como protetor daquelas que, como ele, eram(?) vistas como seres inferiores.
Os livros da auto-biografia de Górki parecem sempre úmidos e nublados. Foi na obscuridade bem descrita, com temperaturas e cores que provocam sensações físicas quando saltam aos olhos, que Górki relatou os dias difíceis - que foram quase todos - que viveu.
Guardei com apreço a descrição dos episódios de amor pelo conhecimento e pelos livros, as passagens em que o autor relembrou as breves, mas valiosas, amizades, e também o modo como o autor/narrador se relacionou com as perdas e intempéries, que não foram poucas ou pequenas. Fiquei admirada ao perceber que, mesmo sujeitado a episódios de brutal violência e agressividade, manifestadas desde o seio familiar e reproduzidas também nas relações sociais, o autor tenha mantido aceso o encantamento pela beleza - que nem sempre, ou quase nunca, está relacionada à felicidade ou às alegrias - que tenha se dedicado a buscar e a produzir o belo.
Os três volumes da autobiografia de Górki relatam histórias de superação. Não da superação clichezenta, do "feliz para sempre" ou do herói, mas da superação de quem se transforma e reexiste a partir do presente e do possível, sem grandes pretensões sobre-humanas.
Infância, Ganhando meu pão e Minhas universidades são, também, livros sobre a força e a beleza de buscar-se em um mundo que parece distante e perdido. São livros de sobreviver.

Infância - Maksim Górki - 312 páginas - Cosac Naify
Ganhando meu pão - Máksim Górki - 456 páginas - Cosac Naify
Minhas universidades - Maksim Górki - 280 páginas - Cosac Naify