23 de jun de 2012

Poema

Empilhar palavras
é construir
um frágil edifício
sem osso.
Poesia é
estrondo deslumbrante,
doce avaria,
o fundo mais fundo
do poço.

20 de jun de 2012

Conta-gotas

Por amor, recuei diante da oferta irrecusável. Sou os tijolos antigos e também as janelas, as duas folhas da porta da sala e as tábuas de madeira acarinhadas pela dança dos pés descalços. O jasmineiro agora sem folhas e a pitangueira que cresce descascante são partes de mim, no quintal. Sou as fendas do tempo e cada um dos desníveis planejados dos quais não posso me desfazer. Tenho no olhar as muitas cores dos azulejos do banheiro mais antigo. Sou a juventude do quarto azul onde compartilho a cama com livros, sonhos e cobertores. Somos histórias entrelaçadas, contadas por um narrador subitamente emudecido. Silêncios compartilhados.
Na madrugada chuvosa, ingrata, ela permite que o céu verta lágrimas sobre o toca-discos que é parte de nós.

9 de jun de 2012

Oração

A mulher à beira do rio contempla o passar das dores.


Prostrada diante do passado líquido, torno-me o silêncio das pedras, distanciada do arrependimento granuloso das terras inférteis.
Habituada ao olhar que menospreza as pessoas e cacos que emergem da nem sempre límpida água corrente, tateio com frieza os abismos que há muito existem em mim.
Preencho com vazios as ausências, com violência desmedida todas as formas de grosseria. Torno-me corpo da agressividade realizável através das palavras e desejos. Existir é uma sucessão de batalhas vencidas por heróis incendiários de florestas inutilizadas.
Não desejo-me outra. Sei dos meus humores e tédios. Admiro-me sobretudo pela quase inacreditável resiliência que me torna superior.


Um passo à frente, ignorada pelo ódio, imergiu nas águas do esquecimento.

5 de jun de 2012

Sublinhamento

Escrever é esquecer. A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida. A música embala, as artes visuais animam, as artes vivas (como a dança e o representar) entretêm. A primeira, porém, afasta-se da vida por fazer dela um sono; as segundas, contudo, não se afastam da vida — umas porque usam de fórmulas visíveis e portanto vitais, outras porque vivem da mesma vida humana.

Não é esse o caso da literatura. Essa simula a vida. Um romance é uma história do que nunca foi e um drama é um romance dado sem narrativa. Um poema é a expressão de ideias ou de sentimentos em linguagem que ninguém emprega, pois que ninguém fala em verso.



Do belíssimo Livro do Desassossego, por Bernardo Soares - Fernando Pessoa