29 de mai de 2013

Sublinhamento

Como se observasse a terra do alto de uma estrela, vi, com um olhar frio e lúcido, a separação de todas as coisas. Senti a muralha da minha pele: eu sou eu. Aquela pedra é uma pedra. A minha maravilhosa fusão com as coisas deste mundo chegara ao fim.

Sylvia Plath, no livro Zé Susto e A Bíblia dos Sonhos

27 de mai de 2013

, sonhei com você, mas você não era você; era um som, um quase música que adoçava o espaço. eu podia te ouvir e senti-lo vibrar na superfície da pele. o sonho tinha aroma de jasmim e estávamos, eu e você-música, em pé sobre pequenas pedras lisas, olhando para o que provavelmente era o horizonte, sentindo a água que não alcançava nossos tornozelos correr entre os dedos e acarinhar os nossos pés. nos mantivemos estáticos, contra a correnteza, mas havia miríades de borboletas em mim. falamos, durante horas ou por dois segundos, sobre a sensação provocada pela água, que era fria. sorríamos para pequenos peixinhos coloridos que brincavam na transparência aquática quando acordei abraçada a uma nuvem, com o mais azul dos céus azuis emoldurado pela janela.


25 de mai de 2013

tudo parece mais bonito do outro lado do muro. na calçada do outro lado da rua, sob o sol, as pessoas envelhecem. as coisas parecem mais bonitas nas casas dos outros. tudo foge do meu controle. me controlo. quase tudo me seduz e tudo me apetece. está tudo bem. tudo ok. tudo certo. todos sorriem. todos amam: corações abertos. estou cercada por aqueles que encanto. tudo ensolarado. tudo feliz. tudo claro. a beleza salvará o mundo. tudo belo. tudo parece mais bonito do outro lado de mim.
minuscularizar e desentitular os desentulhamentos [experi]mentais

18 de mai de 2013

bastam duas ou três palavras sobre a angústia ou o desespero para receber, do alto das nuvens imaginárias, respostas com lições, diretas ou veladas, de bom-mocismo, ascensão, previsões de castigo ou outras bibliosidades atrozes.


ninguém está a salvo quando foge.
ninguém pode me salvar de mim.

saboreio o caos e vou a passos lentos sob a chuva forte, exposta aos raios que podem transformar em morte tudo aquilo que atravessam em estado de luz.não me interesso por promessas porque me satisfaço no presente. o marasmo, essa asfixia oceânica, nunca me interessou.

faz alguns dias que li um discurso em que Saramago dividiu seus romances em estátua e pedra: observação e questionamento. penso que as palavras talvez sejam variações de solo; estar sob o solo, ser solo e erigir-se sobre ele. as palavras podem ser também o retrato de infinitudes e tempestades. aquele que escreve não busca o reino dos céus, mas encontra a beleza no sangue e nas feridas que aparecem sempre que a fina pele da face é rompida pela aspereza do chão.

não subestime a história dos dilacerados: sobreviver aos ferimentos também é um modo de caminhar.

15 de mai de 2013